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A incrível história do escravo que teve 7 mulheres...

A incrível história do escravo que teve 7 mulheres depois de ter fugido para os Quilombos do Vale do Ribeira. 

 

Nessa primeira semana de Março, tivemos nosso primeiro encontro junto dos quilombos do vale do Ribeira para realizar o projeto Orun-Aiye. A intenção inicial do projeto era realizar um intercâmbio de cultura, relatos e experiências entre os moradores dos quilombos e as nossas pesquisas de teatro. Sempre soubemos do contexto histórico de resistência e a atual conjuntura política e latifundiária que impede que estes humanos tenham seu território reconhecido e garantido por lei. Mas, o que mais nos surpreendeu foi ter percebido que aqueles Quilombos precisam, nesse momento, serem reconhecidos entre seus semelhantes. Como por ironia de história de Orixá, os Quilombos do Vale do Ribeira precisam existir para si mesmos em confronto (resistência?) com a cultura superficial do consumo que mora ao lado.

O que realmente importou para os representantes dessas comunidades foi a esperança de ver em nossas atividades a serem realizadas ali a possibilidade de reacender uma chama de identidade quilombola que vem se apagando em meio a luta árdua contra o Estado canastrão e enganador, contra os latifundiários que financiam os políticos em suas eleições, contra a Monsanto que enfia goela abaixo suas sementes modificadas e seus suplementos contra pragas, contra a Escola Estadual (idealizada por um branco) que se instala na comunidade e não transmite nada da cultura quilombola e que, indiretamente, cria em seus estudantes um conceito de valores totalmente diversos do de uma cultura tradicional que faz com que estes depreciem seu território e não pensem em outra coisa a não ser deixar aquela comunidade quando puderem. Chama pequena de cultura rainha do sincretismo que se enfraquece um pouco mais a cada sermão Evangélico-fundamentalista que fala mais do Diabo do que o próprio Deus pregado por dezenas de pastores de alta formação no assunto, espalhados por dezenas de pequenas garagens chamadas de casa de Deus que se instalaram nesses quilombos nos últimos 20 anos. Chama que tenta resistir à politicagem implacável de pseudo-engajados (de direita, de esquerda, de centro) que vêem nesses humanos uma barata e simples massa de manobra para enfraquecer quem está no poder (de direita, de esquerda, de centro). A própria afirmativa encontrada em qualquer livro de geografia contribui para apagar qualquer valorização de identidade: “O Vale do Ribeira é a região mais pobre do Estado de São Paulo”, contém em si o germe da discriminação racial e cultural daqueles povos. O Vale do Ribeira é a região mais rica da Cultura Quilombola e Caiçara que possuímos.

Aquela gente viu no nosso projeto uma Fé de recolocar dentro do próprio Quilombo a discussão do que é UM quilombola e entender o que é O quilombola. A História (com H maiúsculo) não é a chave para resposta do dilema. Eu posso ser quilombola sem saber da minha história, mas sendo plenamente consciente dos meus costumes, dos valores do meu território, das crenças e das tradições que se moldaram (e ainda se moldam) com o tempo e com a necessidade. Quilombola não quer só terra: quer estrada asfaltada, quer energia elétrica, quer ter internet boa, quer votar, quer ser candidato. Quilombola não tem medo de andar com celular 4G e ser confundido com homem branco. Quilombola também gosta de Jeans. Não é por causa dessas vontades que quilombola deixa de ser quilombola não... Isso é pensamento de branco! Coisa de pesquisador de Universidade que vai pesquisar quilombo (pesquisa de campo...) absorve tudo e não deixa nada para aquela gente. Pensar que quilombola deixa de ser quilombola porque não mora em casa de barro e sem luz e porque tem água encanada é pensamento de artista bobo que vai para Quilombo pra pesquisar (pesquisa de campo de novo) dança e teatro sem pesquisar a GENTE que faz dança e teatro daquele jeito. Quilombola não tem medo desse discurso porque sabe que não é nisso que moram seus valores, seus respeitos.

Eis o porquê da exigência e da busca desse reconhecimento territorial. Quilombola não vai ter medo de deixar de ser “do quilombo” quando a terra dele estiver no mapa. Quando ele puder dizer que vem de LÁ, consciente de que o LÁ existe por direito, pela luta. Reconhecido no papel timbrado, carimbado e vistado do branco opressor. Porque é LÁ, no Quilombo, que ele canta a cantiga triste dos tempos de cativeiro, é LÁ que ele dança com a mão esquerda os passos de assentar barro de casa recém construída, é LÁ que ele pede a benção às almas pra proteger contra mal olhado, má sorte, inveja e, obviamente, contra picada de cobra no mato. Somente LÁ que ele entende qual a terra boa pra plantar milho, feijão e arroz que é diferente da terra própria para mandioca ou cana-de-açúcar. De LÁ ele consegue entender qual é a lua boa pra plantar, colher ou orar. Só LÁ, e em mais nenhum outro lugar do mundo, ele sabe que tem a reza da boa, o porco na banha, a cachaça ardida, a farinha com feijão e toucinho. Por fim, é LÁ, atrás da serra, na beira do rio Ribeira que ele sabe que pode ouvir a avó ou o avô de alguém contando tantas inacreditáveis histórias (as vezes com H maiúsculo, tantas vezes com h minúsculo). Como aquela do escravo negro que, há mais de 400 anos, fugiu da Casa Grande com 7 mulheres debaixo do braço e subiu o rio Ribeira para depois parar onde viu que tinha terra boa e águas tantas e fez mais de 7 filhos em cada uma delas. Não de safadagem, mas de preocupação de futuro. De ocupação pensada com fé.

 

Leonardo Garcia Gonçalves 

2019  www.projetoorun-aiye.com